A direita à qual eu não pertenço
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Sou tido como conservador em teologia e
de fato sou. Tenho assumido publicamente
minha profunda afinidade intelectual com
a tradição teológica e de
espiritualidade do calvinismo.
Há poucos dias manifestei minha
discordância em relação a um setor da
esquerda brasileira apresentando
20 pontos de divergência.
Não gostaria, contudo, que essa posição
levasse alguém a concluir que sou um
cristão conservador de direita,
identificado com o que há de pior nesse
campo ideológico, que não expressa o
pensamento e a praxis do que de melhor
pode ser encontrado no verdadeiro
conservadorismo. Por isso, apresento
aqui, com a mesma franqueza, espero e
sobriedade, o conservadorismo de direito
ao qual eu não pertenço. Primeiro, não
pertenço ao conservadorismo de direita
neoliberal. Não o considero
autoevidente, nem o vejo fundamentado
nas Escrituras Sagradas. Não enxergo
como solução para a dificuldade dos
governos em manter um estado de
bem-estar social, livrando-se assim do
déficit público. Repudiu a ideia de
estado mínimo, o corte indiscriminado de
benefícios sociais e a completa
privatização de serviços públicos
essenciais à preservação da vida humana.
Segundo, não votei no ex-presidente Jair
Bolsonaro. Considero tudo o que ele
representa como uma das experiências
mais nocivas já vividas pelo governo
federal brasileiro. Terceiro,
não pertenço à direita que nega o
envolvimento do bolsonarismo com
tentativas de golpe militar,
com o negacionismo científico, com a
indiferença diante do sofrimento humano,
com a incompetência na gestão da
pandemia e com o seu envolvimento
recorrente, escancarado com
autoritarismo.
Quarto, não pertenço à direita que se
recusa a pedir perdão à nação. É aqui eu
estou falando mais para a igreja, pros
cristãos, por ter permitido que o
cristianismo fosse apresentado como
fundamento de um projeto de poder
político, causando danos profundos à
credibilidade pública da fé cristã.
Quinto, repudi a postura de uma igreja
que não se coloca ao lado da classe
trabalhadora,
que não conhece seus dramas, não defende
suas causas e não combate a exploração
promovida por detentores do poder
econômico. Não pertenço a esse
conservadorismo que se acomoda diante da
injustiça social.
Sexto, não pertenço à direita
conservadora que sustenta uma visão tão
pessimista da natureza humana a ponto de
abrir mão da esperança de vivermos numa
sociedade mais decente. Não espero,
definitivamente não espero um paraíso.
paraíso na Terra.
Mas as escrituras e a história fornecem
fundamentos para crermos em
transformações reais que tornam a vida
mais digna no mundo marcado por tanta
injustiça.
Sétimo. Não pertenço à direita que
celebra o capitalismo desregulado,
ignorando suas tendências à concentração
extrema de riqueza e a consequente
violação de direitos humanos básicos.
Oitavo. Não pertenço à direita que vê a
cultura americana como expressão
completa dos ideais de justiça da fé
cristã, a ponto de negar ou relativizar
a desgraça que a política externa dos
Estados Unidos causou e continua
causando em várias partes do mundo. O
Vietnã, o Afeganistão, o Iraque, os
golpes patrocinados na América Latina,
no Chile, no Uruguai, no Brasil e em
outros países são testemunhos
históricos incontornáveis.
Nono, não pertenço à direita que ignora
o quanto a fé cristã pode ser
instrumentalizada
pelos detentores do poder político e
econômico, a ponto de servir como
verdadeiro OP do povo, imobilizando a
sociedade em nome da fé, enquanto
mudanças estruturais são bloqueadas e
pessoas permanecem na mais absoluta
miséria, apenas aguardando o céu.
Isso não é cristianismo.
Décimo. Não pertenço a direita que
ignora o papel exercido pelo poder
econômico no púlpito, na imprensa, nas
artes, na cultura, a ponto de manter o
oprimido como alguém que apenas cuida
das paredes da própria prisão para não
fugir. E isso envolve muita gente de
classe média que se comporta de igual
maneira.
Vejam no Brasil o poder do capital
impedindo pregadores de falarem o que
pensam ou cegandoos a ponto de não
enxergarem o que o dinheiro não lhes
permite ver. 11º. Não pertenço à direita
conservadora
cristã, que julga que o interesse do
patrão sempre coincide com o interesse
da classe trabalhadora, defendendo
automaticamente o rico e ignorando os
dramas do trabalhador explorado no
ambiente de trabalho. 12º. Não pertenço
à direita cristã conservadora que
aplaude, relativiza ou silencia diante
do que Israel faz na faixa de Gaza, do
que os Estados Unidos estão fazendo na
Venezuela ou do que os militares fizeram
no Brasil durante os anos de chumbo.
13º. Não pertenço à direita cristã
conservadora que associa Donald Trump a
Jesus Cristo. Essa confusão entre
messianismo político e fé cristã é
teologicamente grotesca e moralmente
indefensável.
14º Não pertenço à direita cristã
conservadora que ignora os avanços
sociais ocorridos no Brasil durante os
governos do PT. Pobres passaram a ter
acesso à universidade, a moradia digna,
a alimentação básica. Quem conhece o
sertão nordestino sabe do que estou
falando. O combate à fome levado a cabo
por esse partido agradou a Deus. 15º.
Não pertenço à direita
cristã conservadora, que não está aberta
à mudança, que se mantém fechada a
avanços éticos e absolutismo anacrônico,
aquilo que um dia pode ter tido
utilidade social, mas que hoje se
transformou em posição arbitrária, que
adoece e impede a vida humana de
florescer.
16º. Não pertenço à direita que
descaracteriza o cristianismo,
promovendo uma evangelização que torna
as pessoas piores do que eram, mais
duras, mais insensíveis, que as
transforma em estátuas de mármore e
bronze incapazes de compaixão,
que reduz a vida cristã à ética privada,
sem espírito público, sem defesa das
minorias e sem voz para os que não têm
voz.
17º. Não pertenço à direita cristã
conservadora que chama de vagabundos os
beneficiários dos programas
assistenciais do governo federal.
incapazes de reconhecer neles expressões
de compaixão que permitem ao ser humano
vencer a fome e a ignorância para a
partir daí tornar-se autor da própria
história. 18º não pertenço à direita que
ignore o papel da desigualdade social na
prática criminosa. A desigualdade de
oportunidade de vida é parteira do
crime. Ele é capaz de levar pessoas a
praticarem delitos que possivelmente não
praticariam se vivessem em um mundo mais
justo. 19º. Não pertenço à direita que
nega o quanto o aperfeiçoamento das
instituições sociais, a reforma das
relações trabalhistas e a e a promoção
de maior igualdade de oportunidades de
vida. Veja só, ainda que não transformem
seres humanos em santos, contribuem
para reduzir comportamentos antissociais
e desvios de caráter que nascem de
graves injustiças.
Perder isso de vista é profundamente
perigoso, porque significa
responsabilizar exclusivamente o
indivíduo em detrimento do combate às
estruturas do mal, que, repito, servem
como obstetras do crime, que o oprimem.
Por fim,
não pertenço à direita que não defende a
igualdade de oportunidades de vida. Não
há sentido em uma economia que
privilegia alguns e deixa milhões de
esfoliados, destituídos de condições
básicas de existência. Uma ordem social
justa não é aquela que elimina todas as
diferenças, mas aquela que não
transforma o direito de viver com com
dignidade
em privilégio de poucos.
Olha só, conclusão. Vamos lá. Eu teria
muito mais a dizer.
A minha lista não é exaustiva, nem pra
direita e nem pra esquerda, mas eu
insisto neste ponto central. Sou cristão
socialdemocrata.
Não apresenta a socialdemocracia como
algo que esteja tal qual o rótulo nas
páginas da Bíblia. Ela é antes uma
leitura política que faço a partir da
fé, da reflexão e da observação da
história. Creio que sem o progressismo
a sociedade se cristaliza e que sem o
conservadorismo
ela perde estrutura.
O verdadeiro desafio não está nos
extremos, mas na difícil tarefa de
sustentar tensões fecundas entre justiça
e ordem, mudança e permanência,
compaixão e responsabilidade.
Permita-me dizer: "Não falo para agradar
à direita ou à esquerda.
Falo para situar-me com honestidade
diante do meu criador
e da minha própria consciência.
é um caminho mais solitário
no qual tem encontrado
muita gente que tem usando a
terminologia bíblica estendido a destra
da comunhão para mim
e
lutando assim pelos mesmos sonhos. M.
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